Armando Norte História İdade Média Entrevista

Armando Norte História İdade Média Entrevista

Armando Norte: 'A cultura é um dos poucos elevadores sociais da Idade média'

16/01/2021 13:26:00

Quem eram os intelectuais portugueses da Idade Média?_De onde vinham e o que faziam? Armando Norte, doutorado em História Medieval e autor de um livro sobre o Papa português, João XXI, procurou responder a estas questões seguindo o modelo do medievalista francês Jacques Le Goff, que em 1957 publicou o seu livro seminal Les Intellectuels au Moyen Age.

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Em Os Intelectuais em Portugal na Idade Média (ed. A Esfera dos Livros) encontramos um santo (Santo António), um Papa (João XXI), um cronista (Fernão Lopes), um monarca (D. Duarte) e um dramaturgo (Gil Vicente). Uma mão cheia de personalidades muito diversas, que mostram a paleta de saberes disponível na época e como o acesso à cultura era quase transversal, mesmo numa sociedade muito estratificada.

No seu livro dá-nos conta de que nos séculos XII-XIII se vive um período de relativa prosperidade – houve quem lhe chamasse ‘o grande degelo’. É esta espécie de primavera que cria as condições propícias para o surgimento do intelectual? headtopics.com

Sim, há um contexto claramente favorável porque termina uma altura mais glaciar e há um aquecimento global. Esse aquecimento acaba por ter repercussões que vão muito além das mais óbvias, que seriam em termos da agricultura. A par disso vem depois um aumentar das trocas, um intensificar da vida urbana, e é na cidade que a vida intelectual prospera. Toda esta conjuntura, que tem depois ramificações económicas, sociais, etc., acaba por se manifestar em fenómenos culturais. Vai ser um caldo que beneficia a sociedade de uma forma geral, porque tem manifestações ao nível do bem-estar das populações, e esse bem-estar é condição sine qua non para a cultura. Só com o seu bem-estar assegurado é que as sociedades têm mais espaço para questões culturais.

O professor Artur Anselmo, nas aulas de Cultura Clássica, costumava dizer qualquer coisa como‘Primum manducare, deinde philosophari’. Filosofar sim, mas de barriguinha cheia...Exato!Tocou no aspeto do desenvolvimento urbano. Na transição da Antiguidade para a Idade Média, os mosteiros tinham funcionado como reservatórios que permitiram preservar o saber clássico...

Há um autor que fala dos mosteiros desta alta Idade Média como os ‘clarões nas trevas’. O Império Romano tem uma vida urbana muito intensa que, na transição para aquilo a que agora se costuma chamar a Antiguidade tardia, desacelera. Isso é aprofundado com as sociedades feudais, que são sobretudo rurais, agrárias, em que as unidades económicas acabam por ser de pequena dimensão, geralmente anexas às propriedades dos grandes senhores. No renascimento carolíngio [período de Carlo Magno] e no renascimento otoniano [reinado do imperador Otão da Alemanha, séculos X-XI], as cidades voltam a ter alguma dimensão, mas são sobretudo as pequenas unidade que vão sobrevivendo. Há uma desestruturação da malha urbana que havia na Antiguidade tardia, e a reestruturação só acontece nesse período do século XII-XIII, por onde começou a nossa conversa. Os mosteiros, pela sua própria natureza, enquanto instituições que são recolhidas do turbihão do mundo e acabam por ser os sítios ideais para a preservação da cultura. Essa reclusão permite-lhes manter sob a sua tutela um conjunto de obras e copiá-las porque faz parte das obrigações dos monges o ato de cópia de manuscritos.

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