Opinião Viver Para Contar Racismo Sociedade Sérgio Sousa Pinto

Opinião Viver Para Contar Racismo Sociedade Sérgio Sousa Pinto

Viver para Contar: O racismo é estúpido?

10/06/2021 00:26:00

Nestes tempos desvairados em que vivemos, o racismo tornou-se um tema constantemente presente. Surgiu de repente, na avalancha do politicamente correto que nos quer tomar conta do pensamento, e não só em Portugal: surgiu em todo o mundo ocidental.

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Na minha infância e juventude nunca me apercebi de que o racismo fosse um problema em Portugal. Mesmo nos tempos da guerra colonial, em que muitas famílias portuguesas viam os filhos partir para África e morrer às mãos de guerrilheiros negros, nunca assisti a episódios marcadamente racistas – o que, até certo ponto, seria natural e compreensível.

A propaganda do Estado Novo (que neste aspeto era igual à da I República), segundo a qual Portugal era um Estado «pluricontinental e plurirracial», tinha uma correspondência na realidade, pois o racismo que observávamos em países como os Estado Unidos não existia aqui. headtopics.com

Lembro-me de um filme chamado The Chase (Perseguição Impiedosa, na versão portuguesa), de Arthur Penn, com Marlon Brando, Jane Fonda e Robert Redford, que me impressionou profundamente e em relação ao qual pensei: uma situação destas era impossível em Portugal.

Significa isto que a propaganda ‘antirracista’ a que temos vindo a assistir nos últimos anos tem tido o efeito contrário ao pretendido: tem incendiado os ânimos e promovido o racismo. Não percebo como algumas pessoas não veem isto. As campanhas antirracistas, as organizações antirracistas, estão a criar um ambiente confrontacional que só contribui para despertar demónios adormecidos. 

Sérgio Sousa Pinto, um homem que não conheço pessoalmente mas aprecio, porque tem a coragem de pensar pela sua cabeça, dizia um dia destes que o racismo «não é sistémico», ou seja, não está disseminado na sociedade. Dito de outro modo, em Portugal há racistas (como em todo o mundo) mas Portugal não é um país racista. Da mesma forma que, havendo ladrões entre nós, não se pode dizer que sejamos um país de ladrões. 

Mas depois de dizer isto, Sousa Pinto afirmava que o racismo «é estúpido». Ora, esta afirmação já não é correta.O racismo não é estúpido. Pode ser «odioso», pode ser «repugnante», pode ser «egoísta», mas não é «estúpido». Por estúpido entende-se que não faz sentido, que não tem razão de ser, que é absurdo, anacrónico. Ora, o racismo é um fenómeno que existe em todas as sociedades e é perfeitamente explicável. Todos os animais (e não só os humanos) reagem ao que é diferente. Trata-se de uma reação instintiva, de defesa. Os brancos reagem com alguma estranheza aos negros, os negros aos amarelos, os amarelos aos brancos, etc.  headtopics.com

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São reações que decorrem do instinto de sobrevivência, comum a todo o reino animal. Que têm que ver com a preservação da identidade, da cultura, da religião, do padrão étnico, dos usos e costumes. 

Nestas condições, como combater o racismo? Com propaganda, como se está a tentar? Não. O racismo combate-se com a civilização. O homem primitivo reagia com agressividade perante a invasão de pessoas estranhas. Mas o homem civilizado tende a aceitá-la. A compreender o que é diferente. Até a ser solidário com o que é diferente.

Se observarmos bem, as pessoas das camadas mais baixas da população são as mais intolerantes em relação aos negros e a outras ‘raças’. São as mais racistas. Talvez porque os africanos e os orientais lhes disputam os empregos. Mas julgo que não é só isso. 

O racismo combate-se através da civilização, porque é através da civilização que educamos os nossos instintos básicos e as reações primárias. Que aprendemos a aceitar a diferença. Que aprendemos a admitir opiniões contrárias. Que aprendemos a perder, a aceitar a derrota com fair play. Tudo isso são aquisições da civilização.  headtopics.com

Mas atenção: essas aquisições, que em geral são boas, são mesmo fundamentais para permitir a vida em sociedade, também correm o risco de levar a um certo ‘amolecimento’ dos povos. As reações primárias, instintivas, de defesa, protegem as comunidades dos intrusos, dos invasores. A partir do momento em que se civilizam e os aceitam, as sociedades correm o risco de ser tomadas por dentro – como está a acontecer em alguns  países ocidentais, onde em certas zonas as comunidades islâmicas já impõem as suas leis. 

Resumindo: ao dizer que o racismo «é estúpido», Sousa Pinto – que é suposto ter pensado suficientemente no assunto – enganou-se na palavra. De estúpido o racismo não tem nada. É uma reação instintiva de defesa, que se modera com o avanço civilizacional – e com a aceitação do princípio de que todos os seres humanos têm os mesmos direitos. Cuidado, porém!

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O progresso civilizacional, que nos leva a admitir a diferença, também tem os seus perigos, pois conduz ao tal amolecimento. Ora, foi devido a ele que Roma foi tomada pelos bárbaros. O equilíbrio entre a tolerância para aceitar o que é diferente e uma certa firmeza para sublinhar a identidade será o segredo das comunidades que querem manter a sua autonomia. E, em última análise, preservar a sua existência.

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