Trinta ou trinta e um, a vitória da irritação?

İonline, Jornal

24/01/2022 12:42:00

Fervilha um misto de cansaço e irritação, quiçá aditivado pelo quadro pandémico, que suscita o nível de incerteza eleitoral a que estamos a assistir numas eleições em que há uma manifesta ausência de propostas mobilizadoras e de uma visão para o país, além da gestão de turno de uma qualquer governação.

Num contexto fortemente globalizado, em que as realidades nacionais estão configuradas pelas opções de posicionamento da soberania e pelas dinâmicas supranacionais, não há uma ideia debatida, uma proposta ou uma iniciativa sobre a Europa, a lusofonia ou a nossa inserção no mundo. No debate eleitoral, estamos debruçados sobre nós próprios, a arremessar responsabilidades e medos, sem aparente noção da necessidade de compromisso para o dia 31. O trinta pode ser mesmo um trinta e um, pela participação eleitoral, pela dispersão e pela ultrapassagem de linhas vermelhas que, para viabilizar o país, precisam de ser ultrapassadas, desdizendo o que foi dito em campanha.

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Pedro Nuno e Montenegro, cada um a puxar pela vitóriaAntigo opositor de Rui Rio foi, no sábado, dar força ao líder, em Espinho. Na mesma cidade, e quase à mesma hora, o ministro apontado como sucessor de António Costa entrou na caravana.

No debate eleitoral, estamos debruçados sobre nós próprios, a arremessar responsabilidades e medos, sem aparente noção da necessidade de compromisso para o dia 31. Fervilha um misto de cansaço e irritação, quiçá aditivado pelo quadro pandémico, que suscita o nível de incerteza eleitoral a que estamos a assistir numas eleições em que há uma manifesta ausência de propostas mobilizadoras e de uma visão para o país, além da gestão de turno de uma qualquer governação. Num contexto fortemente globalizado, em que as realidades nacionais estão configuradas pelas opções de posicionamento da soberania e pelas dinâmicas supranacionais, não há uma ideia debatida, uma proposta ou uma iniciativa sobre a Europa, a lusofonia ou a nossa inserção no mundo. No debate eleitoral, estamos debruçados sobre nós próprios, a arremessar responsabilidades e medos, sem aparente noção da necessidade de compromisso para o dia 31. O trinta pode ser mesmo um trinta e um, pela participação eleitoral, pela dispersão e pela ultrapassagem de linhas vermelhas que, para viabilizar o país, precisam de ser ultrapassadas, desdizendo o que foi dito em campanha. Os portugueses estão irritados, cansados de um quotidiano amarfanhado pela pandemia, pela realidade de mínimos e pelas perspetivas. É uma realidade que se sente nas conversas, nos desabafos de rua e nas atitudes, mas que não é totalmente captada nos estudos de opinião. Em muitos casos, é o resultado da conjugação da configuração das suas vidas e da sucessão de situações de desgaste do funcionamento do sistema democrático, dos seus protagonistas, das narrativas políticas, dos resultados reais e da profusão de casos, mais ou menos artificiais, amplificados pelos media em conluio com um sistema judicial desfocado da sua missão e dos direitos, liberdades e garantias. A irritação autárquica de Lisboa foi a última grande expressão do estado de alma dos cidadãos e, ao invés do que afirma António Costa, não resultou de nenhum conformismo com os resultados das sondagens, mas do perfil da gestão e da sucessão de motivos de irritação do eleitorado. É preciso ter bem presente que um dos rostos da governação além da Troika, Carlos Moedas, ganhou as eleições apesar da agitação dos medos e da ameaça de regresso ao passado, numa campanha eleitoral pouco conseguida, sem chama e sem razões visíveis de mobilização. E pur si muove! Moedas ganhou, com frágeis condições de governabilidade. Rui Rio percebeu o virtuosismo do posicionamento face à irritação latente e configurou a campanha apostado em apresentar-se como alternativa básica, uns graus acima do “finge-te de morto”, num patamar de fixação do eleitorado à direita e de atração do eleitorado do centro, ignorado pelo PS ao longo de uma governação acantonada à esquerda. O lema do “não os irrites” contrasta com o pedido de maioria absoluta temperada com garantias de diálogo, de abertura e de outras mezinhas democráticas de integração da diferença a partir do exercício do poder. Para quem sempre combateu com circunstâncias reais ou construídas favoráveis o ajustamento a um quadro menos favorável é sempre difícil. As circunstâncias mudaram, o mundo também e já nem o quotidiano ajuda com notícias diárias sobre o caso Cabrita, as confusões com os votos dos confinados ou as fragilidades da plataforma do voto antecipado, e, como corolário, a emergência de José Sócrates para ajustar contas mediáticas, entre outros, com o juiz Carlos Alexandre e um sistema judicial que se permite distorcer o Estado de Direito a pedido das corporações. Sem intenção, claro! Há um contexto, um conjunto de narrativas políticas e propostas que se propõem executar no contexto, mas no estado de alma atual, o que pode vir a contar mesmo é o posicionamento. A atitude face ao tempo recente e o nível de risco em função do que temos pela frente, numa escolha pontuada pela irritação, que pode determinar sobretudo a rejeição e a escolha de um mal menor. Rio posicionou-se como alternativa de baixo risco para a realidade e o nível de irritação. António Costa brandiu os riscos, assegurou as medidas do orçamento chumbado e verbalizou o pedido da maioria absoluta, talvez antes de tempo, gerando mais irritação e insuficiente mobilização. Neste contexto de mínimos, de uma crise política determinada pela desavença da solução governativa afirmada para rejeitar a direita, o bumerangue pode regressar ao ponto de partida dos protagonistas em presença, recarregando-se para mais um quadro de rejeição, agora marcado por uma maior pulverização do espetro partidário, que dificulta as maiorias absolutas e as soluções de governo sustentáveis para fazer o que é preciso. Estamos a menos de uma semana das eleições, ontem houve voto antecipado, os resultados estão em aberto, com todos os riscos bem presentes, num contexto de grande exigência em que nenhum protagonista político responsável pelas circunstâncias deixará de ter de assumir responsabilidades pelo que vier a acontecer, incluindo o inquilino de Belém. Como português, democrata e militante do Partido Socialista, partido da esquerda democrática, tolerante, plural e acima de capturas radicais ou de visões distorcidas dos equilíbrios que as pessoas e o território precisam, o desejo é de uma grande participação eleitoral. O voto é mesmo uma das armas do povo, que não se deve limitar a dar uns tirinhos de quatro em quatro anos. É essa falta de exercício cívico a todo o tempo que faz com surjam os irritantes que obstaculizam a normal fluidez do sangue do sistema democrático e do Estado de Direito: todas as pessoas, todo o território nacional e o interesse geral. Dia 30, para dar expressão à irritação com a direita ou com a solução governativa implodida, é votar! NOTAS FINAIS OITO. Absorvidos pela tática eleitoral, há pouca discussão sobre o que importa para o futuro. Temos um PRR e um Portugal 2030 que se apresentam como a mãe e o pai da recuperação pós-pandémica, mas todos os dias há notícias de falta de mão de obra e de outras circunstâncias que impedem a execução dos projetos e a utilização dos financiamentos. Os concursos públicos por esmagamento dos preços e aumento dos preços das matérias primas ficam desertos. Um quinto das vagas de estágios na função pública ficaram por preencher. Já nem o emprego para a vida atrai. OITENTA. O uso e abuso das distorções do sistema judicial e da impunidade dos conluios entre agentes do sistema e os media estão a implodir o Estado de Direito Democrático. Nem o Presidente da República, responsável pelo normal funcionamento das instituições, nem a Procuradoria Geral da República, nem os Conselhos Superiores piam face à miserável divulgação de escutas telefónicas ao universo do Sport Lisboa e Benfica sem qualquer relevância para os processos de investigação judicial em curso. Em contraste, há magistrados no Porto que se recusaram a realizar buscas e continuam em funções. O Benfica já teve piratas informáticos que roubaram dez anos de comunicações eletrónicas internas, agora tem escutas com conteúdos de opinião ou dimensões desportivas que nada têm a ver com a aferição da legalidade. Continuem todos a folgar as costas com o pau nas costas dos outros, a idolatrar piratas informáticos e a permitir devassas judiciais e mediáticas com objetivos comerciais, desportivos e institucionais, que, quando o desgoverno for total e não seletivo, será tarde demais.