Quase dez mil casos por dia em crianças e jovens após reabertura das escolas. Impacto da covid-19 já se sente nas turmas

Covid-19: Quase dez mil casos por dia em crianças e jovens após reabertura das escolas. Impacto já se sente nas turmas

Covid-19, Coronavírus

20/01/2022 02:30:00

Covid-19 : Quase dez mil casos por dia em crianças e jovens após reabertura das escolas. Impacto já se sente nas turmas

Nos últimos nove dias, entre 10 e 19 de Janeiro, as faixas etárias dos zero aos nove anos e dos dez aos 19 anos somaram um total de 88.633 casos — o que corresponde a cerca de 9848 casos por dia entre as crianças e jovens.

O epidemiologista Manuel Carmo Gomes associa este aumento à abertura das escolas. “Ao contrário do que algumas pessoas dizem de que não há transmissão nas escolas, o resultado está à vista”, explica ao PÚBLICO. Os dados do especialista confirmam que o número de casos na faixa etária dos zero aos cinco anos e dos seis aos 11 anos estão a aumentar rapidamente.

cobertura vacinal com a dose de reforço“As crianças infectam-se entre elas na escola e depois trazem o vírus para casa”, explica o epidemiologista, acrescentando que a infecção pode depois passar “para os pais e eventualmente para os avós”.

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O grupo etário que registou o maior aumento, durante o mesmo período, foi o dos zero aos nove anos, com mais 41.934 casos, o que corresponde a um aumento percentual de 37%. Já a faixa etária dos dez aos 19 anos contabilizou, nos últimos nove dias, 46.699 infectados (um aumento de 26%), segundo as contas do PÚBLICO tendo por base os pela Direcção-Geral da Saúde (DGS). Aumentar O epidemiologista Manuel Carmo Gomes associa este aumento à abertura das escolas. “Ao contrário do que algumas pessoas dizem de que não há transmissão nas escolas, o resultado está à vista”, explica ao PÚBLICO. Os dados do especialista confirmam que o número de casos na faixa etária dos zero aos cinco anos e dos seis aos 11 anos estão a aumentar rapidamente. Nos últimos dias, verificou-se também um aumento das infecções no grupo dos 11 aos 17 anos. Pelo contrário, dos 18 aos 24 anos, nos jovens adultos que, regra geral, ainda não têm filhos, o número de casos tem vindo a descer — anteriormente, este “era o grupo que tinha uma incidência mais alta”. Manuel Carmo Gomes mostra-se preocupado com o facto de o número de casos estar também já a aumentar entre os 40 e 49 anos, uma faixa etária que inclui os pais das crianças que andam na escola primária e que não tem ainda uma cobertura vacinal com a dose de reforço contra a covid-19 elevada. Segundo dados até 16 de Janeiro citados pelo especialista, apenas cerca de 20% das pessoas entre os 40 e 49 anos foram vacinadas com a dose de reforço. A cobertura vacinal com a dose de reforço nas pessoas entre os 50 e 59 anos é de 54%. Trazer o vírus para casa “As crianças infectam-se entre elas na escola e depois trazem o vírus para casa”, explica o epidemiologista, acrescentando que a infecção pode depois passar “para os pais e eventualmente para os avós”. O vice-presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, Gustavo Tato Borges, reforça que o aumento de casos nas crianças e jovens “condiciona a vida na escola, a vida profissional dos pais e também a saúde de todas as pessoas que coabitam com estas crianças”. “Esse aumento de casos nas faixas etárias mais novas condiciona um aumento de casos nas faixas etárias mais elevadas e tudo isto, em conjunto, condiciona também um aumento dos internamentos e da mortalidade. Está tudo interligado e acaba por ser mais uma acha na fogueira que a Ómicron veio acender ”, afirma. Carlos Antunes, matemático da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que tem monitorizado os números da pandemia, Expresso que um dos “motores” deste aumento de casos nos últimos dias tem sido a faixa etária dos mais novos, “com os casos a mais do que triplicar nas crianças entre os zero e os nove anos em apenas uma semana”. O especialista não exclui um “agravamento da situação, dada a dimensão da incidência”, e admite mesmo que Portugal continue a assistir a um crescimento de casos, adiando o pico da quinta vaga — . 7,2 milhões de infectados até Abril Manuel Carmo Gomes faz uma projecção: imaginando que a variante Ómicron infecta 40 mil pessoas por dia em Portugal e que há um “factor de ampliação” de 1,5 (que contempla os casos que não sabemos que ocorrem), em 120 dias, ou seja, até ao final de Abril, teremos 7,2 milhões de pessoas infectadas no país. “A maioria da população portuguesa, nos próximos meses, vai entrar em contacto com o vírus”, conclui. O especialista salienta que, embora “ a gravidade da doença não tenha nada a ver com as anteriores versões do vírus” — com um impacto menor nos cuidados intensivos —, “como há um número muito grande de casos isso tem impacto hospitalar infelizmente e tem impacto nos cuidados de saúde primários”. Gustavo Tato Borges refere, por sua vez, que “este é um jogo de números”. “Tivemos um aumento de casos tão astronómico que vamos ter sempre mais risco de ter mais pessoas internadas no hospital”, diz, embora saliente que, “neste momento, a grande maioria das pessoas que estão internadas estão com doença controlável, sem necessidade de cuidados intensivos”. O vice-presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública lembra que a recomendação que fez anteriormente “para que o início das aulas do segundo período fosse em ensino à distância era exactamente porque estava a prever que isto iria acontecer”. Actualmente, diz, “há imensas crianças infectadas, imensos profissionais da educação infectados, escolas a não terem capacidade para poderem estar abertas porque não têm recursos humanos e professores a queixarem-se que não conseguem dar matéria nova porque os alunos estão constantemente” a entrar e a sair da escola. Escolas em situação “complicada" “A situação está a ser muito complicada, de forma transversal, no país inteiro”, começa por explicar Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). “A maior parte das escolas têm uma enorme quantidade de alunos, em termos percentuais, todos os dias a ficarem em casa”, acrescenta, destacando que os dados a que teve acesso (embora admita serem pouco rigorosos) apontam que “todas as escolas, neste momento, têm mais de 5% dos seus alunos em casa”. “Estamos com problemas porque temos muitas turmas, nomeadamente do primeiro ciclo, onde o número de alunos que está em casa porque testaram positivo ou porque coabitam com pessoas que testaram positivo é bastante elevado”, sublinha. O facto de o período de isolamento ter sido reduzido , de acordo com as normas da DGS, faz também com que os alunos fiquem menos tempo em casa e haja uma maior rotatividade. “Estão uns a retornar à escola e outros a ir [para casa]”, diz Manuel Pereira. Além disso, os próprios professores e educadores estão também a ficar infectados. “Há turmas do primeiro ciclo e pré-escolares onde há muitos alunos que testaram positivo e onde o próprio professor ou educador também testou positivo”, afirma. Porém, o presidente da ANDE admite que, na sua maioria, os adultos estão vacinados e a percentagem de professores ou funcionários positivos “não é tão elevada” comparativamente com os alunos. A maior dificuldade é evitar que os alunos fiquem “para trás” na matéria. “Há necessidade de apanharem [a matéria] em casa ou recuperarem quando regressam [à escola] e isto implica uma sobrecarga de trabalho”, afirma Manuel Pereira, destacando o “cansaço” dos docentes. “Estamos seriamente preocupados porque quanto mais tempo durar este período de intranquilidade mais o sucesso dos alunos é posto em causa.” Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas, assume que “já se está a sentir” o impacto deste aumento de casos nas escolas, algo que diz ser “expectável” até porque