O que é que “Gambito de Dama” tem?

O que é que “Gambito de Dama” tem?

28/11/2020 14:00:00

O que é que “Gambito de Dama” tem?

É um sucesso improvável na Netflix. E não é preciso gostar de xadrez para que nos envolva irremediavelmente

NetflixQuase no início do sexto episódio desta série, há uma cena definidora. No fim do episódio anterior, Benny, um antigo oponente de Beth, convence-a a vir com ele para Nova Iorque, treinar intensamente antes dela ir ao torneio de xadrez de Paris, onde espera desforrar-se do russo Borgov que lhe infligira humilhante derrota. No termo de uma viagem de 12 horas num Volkswagen que já teve melhores dias, Beth olha o perfil noturno de Manhattan visto do lado oeste e percebemos o seu maravilhamento. É o topo do mundo. Quando chegam a casa de Benny, ela faz menção de subir a pequena escada que conduz à porta de entrada, antes dele apontar para baixo. Benny mora numa cave, um espaço aberto sem paredes interiores, uma espécie de toca muito longe da iridescência dos arranha-céus que víramos antes. É um buraco, é o fundo do mundo. “Gambito de Dama” é toda assim. Ora vai acima, ora vai abaixo, a vida de Beth é aos solavancos que avança — e talvez seja a brutalidade desses solavancos o que atrai os espectadores que estão a fazer de “Gambito de Dama” uma das séries mais vistas da Netflix. Isso e a personalidade da protagonista com quem não há quem não empatize, que todos queríamos ser e ao mesmo tempo não ser, porque entre ter os dons que ela tem e pagar o preço que ela paga, o negócio é de risco. Beth vai de órfã numa instituição austera na América profunda a campeã do Mundo de xadrez em Moscovo — e quase deixa a sanidade como moeda de troca. Beth é um génio mental, mas não é muito boa a relacionar-se com os outros ou a suportar-se a si própria.

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Como é possível que uma série que gira em torno de um assombroso talento para o xadrez seja um sucesso? Porque, deveras, o xadrez não é o tema, o xadrez é um MacGuffin. O termo, forjado (ou, pelo menos, enunciado) por Alfred Hitchcock, designa um dispositivo ficcional que parece estar no centro dos acontecimentos, mas que, no fundo, interessa nada. Deve interessar ao espectador, claro, é como um isco arpoado no anzol, é atrás dele que vamos. E deve interessar aos personagens, é o que os move. Mas, de facto, o mais importante é outra coisa, como, de algum modo obscuro e inconsciente, o espectador sabe. Um exemplo clássico de MacGuffin é o urânio traficado em “Notorious”/“Difamação”, filme que Hitchcock fez logo a seguir à guerra, em 1946. É pelo urânio que se organiza a rede nazi, é para a desmantelar que a contra-espionagem americana manda o Cary Grant e a Ingrid Bergman infiltrar essa rede. Na realidade, o que importa não tem nada a ver com urânio, o que importa é que Cary Grant meta a mulher que ama na cama do espião e que este, apaixonado por ela, se deixe perder por amor. Em última instância, o MacGuffin poderia ser uma não-existência, como Hitchcock contava na célebre anedota em que dois homens vão no comboio e um deles leva um grande embrulho. E dialogam: O que leva aí?; Um MacGuffin; O que é um MacGuffin?; É um aparelho para caçar leões nos Adirondacks; Mas nos Adirondacks não há leões!; Então não é um MacGuffin.

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