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Entrevista, Misericórdias

″Não hipovalorizo os homens, nem quero hipervalorizar as mulheres, mas cuidar é inato nas mulheres″

'Não hipovalorizo os homens, nem quero hipervalorizar as mulheres, mas cuidar é inato nas mulheres'

09/04/2020 03:08:00

'Não hipovalorizo os homens, nem quero hipervalorizar as mulheres, mas cuidar é inato nas mulheres'

Maria Amélia Ferreira foi a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, onde continua a dar aulas e a fazer investigação. Também é provedora da Santa Casa da Misericórdia do Marco de Canaveses e é nessa qualidade que elege as mulheres que trabalham nesta área da proteção social como as grandes heroínas da luta à pandemia de covid-19. Num discurso sobre o saber cuidar que, garante, é tudo menos feminista.

SubscreverNo lar da Santa Casa que dirige há idosos infetados?Não foram ainda feitos testes aos utentes e aos funcionários, não temos nenhum caso sintomático. A instituição conseguiu estruturar-se de modo a setorizar os diferentes andares, ter uma política de higienização e constituição de equipas- espelho. Não acontece em todo o lado. Com uma vantagem muito grande: temos desde há muitos anos um médico contratado de medicina geral e familiar que vai ao lar avaliar os 60 utentes. Temos também equipas de enfermagem, o que não acontece na maioria dos lares em que a única coisa que é obrigatório é ter uma enfermeira para 40 utentes.

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Esta desgraça que nós temos ouvido de Aveiro e de Vila Real, com mortes de pessoas, é muito fácil de acontecer.A professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto considera que a entrega dos médicos nesta pandemia revela verdadeira humanidade.

© Pedro Granadeiro/Global ImagensQuando tomaram essas medidas?Desde muito cedo, antes das recomendações da DGS proibimos as visitas - às vezes com alguma má compreensão, o que também se percebe. O isolamento foi rapidamente ultrapassado com telechamadas - usamos os nossos iPads, telefones, e pusemos as pessoas a verem-se umas às outras. Foi uma política não reativa, mas proativa.

E no hospital da Misericórdia qual é a situação?É um hospital aberto à comunidade, mas que tem internamento muito especial, ou seja, para utentes muito idosos que estão à espera para entrar no lar. É um hospital de doentes crónicos e que podem agudizar. O nosso diretor clínico é o professor Agostinho Marques Lopes, que durante 30 anos foi diretor do serviço de pneumologia do hospital de São João.

Há infetados internados?Uma senhora internada teve de ir ao hospital de Penafiel e fizeram-lhe lá o teste que deu positivo. À custa da Misericórdia testámos todos os doentes e funcionários do hospital e dos cuidados continuados porque são áreas muito sensíveis.

Detetámos quatro caso positivos que estavam no mesmo andar. Foram isolados, tratados - uma das pessoas tem 93 anos. Instituímos um tratamento que tem sido estabelecido com a hidroxicloroquina e azitromicina e estão sem sintomas. Não temos mais nenhuma situação além de uma funcionária que está em casa de quarentena. Está a ser uma sobrecarga muito grande, não temos apoio do Ministério da Saúde. Estamos a assegurar tudo, com as dificuldades que se sabe na obtenção de equipamento de proteção social.

Quanto gastaram em testes e equipamentos?No que encomendámos, temos à volta de 100 mil euros e só em testes gastámos 6 mil euros. E as empresas exigem pagamento à cabeça, temos de pagar primeiro e depois esperar que chegue. A União das Misericórdias Portuguesas tem estado a acompanhar todo este processo e tem tido um papel muito relevante junto do governo, particularmente do Trabalho e da Solidariedade Social e da Saúde, mas as respostas não têm sido muito eficazes. Até ao momento não chegou nenhuma das encomendas feitas quer ao Infarmed quer à Cruz Vermelha. E porque acabámos por cancelar as consultas e cirurgias, o aporte económico reduziu brutalmente e temos de pagar ordenados. Além desta crise da saúde, a crise económica vai ser dramática.

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Em termos gerais, onde é que tem havido falhas?Na proteção dos idosos... estarmos a portar-nos mais reativamente do que proativamente, mas também ninguém estava preparado para uma coisa destas. E temos de ter números corretos.

E o que está a correr bem?O empenho dos portugueses, embora haja sempre osoutliers. Mas tem corrido bem o facto de mais uma vez as instituições de solidariedade social assumirem a defesa dos mais fracos em pontos onde o Estado não tem dado respostas. E os lares e os mais idosos têm sido esta situação.

Esta pandemia vai alterar a forma como nos posicionamos?Vai mudar completamente. Vai mudar os nossos valores de vida, a tipologia do próprio consumo. Começou a emergir aquilo que de facto é importante na vida. O isolamento a que somos obrigados consegue transmitir-nos de uma forma muito mais forte o que significa a comunidade, que

a nossa vida não depende só de nós, das nossas escolhas, porque estamos na mão uns dos outros.Também uma oportunidade para olharmos de outra forma para os idosos?Dos mais frágeis, sem dúvida. Numa altura em que temos uma inversão demográfica muito grande, claramente estamos a ver que os idosos, para além da idade, têm muita doença associada que os torna muito mais frágeis. Há muita gente a viver isoladamente. Aqui na Misericórdia criámos um serviço móvel de saúde multidisciplinar para as freguesias mais afastadas - já estávamos a seguir cerca de 150 idosos, muito isolados, muitas mulheres. É aquilo que muitas vezes o professor Adalberto Campos Fernandes dizia: somos um país de mulheres, velhas, pobres, viúvas e doentes.

"Depois disto, todos nós vamos ter muita consciência da finitude da vida."Vamos sair mais unidos, mais solidários, ou quando passar voltamos a olhar para o umbigo?Vamos ser mais solidários. Vamos tirar a lição, não estávamos habituados a partilhar e a compartilhar muito das nossas vidas. E isso vê-se por exemplo nas questões do isolamento, que pode dar para o bem ou para o mal. Há muitas situações em que as pessoas são incompatíveis, que têm dificuldade em viver juntas. A responsabilização dos pais pela edução e formação dos filhos nesta altura é mais evidente.

Tudo isto, não sei até que ponto nos pode trazer surpresas desagradáveis em termos de violência doméstica. Que a vida vai mudar, vai. Não tenho a mínima dúvida de que, depois disto, todos nós vamos ter muita consciência da finitude da vida, e ainda mais se algum dos nossos amigos morrer com isto. E

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estamos a ter muito mais respeito pelas pessoas que trabalham na área da saúde. Este momento mostrou que essas pessoas estão a dar o corpo às balas e estão onde são precisas para salvar outras vidas.É uma demonstração muito relevante do que é o profissional de saúde e de quem, para salvar vidas, está a pôr em risco a sua própria vida e a de familiares.

"O que se está a tratar é de colocar os valores em primeiro lugar e esta foi uma oportunidade mágica para que isso possa ocorrer. E isso é o sentido mais explícito de humanidade."Também pode ser uma oportunidade para humanizar a medicina?

A humanização da medicina era algo que estava a ser muito bem trabalhada por uma série de organizações, entre as quais a Ordem dos Médicos, até com a publicação de um livro sobre a relação médico/doente e que estava proposta para ser património imaterial da humanidade. Os aspetos da humanização da medicina são cruciais numa fase em que a tecnologia teve um desenvolvimento muitíssimo grande. Como costumo dizer, é muito mais fácil ensinar técnicas do que ensinar a ser boa pessoa e a cumprir com os deveres que se têm de cumprir. Com esta situação, vemos que as pessoas estão dispostas a ir para a frente da luta e para a defesa dos seus pares, dos cidadãos, da humanidade.

O que se está a tratar é de colocar os valores em primeiro lugar e esta foi uma oportunidade mágica para que isso possa ocorrer. Isso é o sentido mais explícito de humanidade.Que palavras diria aos seus colegas que estão na linha da frente?

Que, neste momento, eles representam aquilo que pautou a escolha que fizeram da profissão e que representam os valores que pautam e referenciam - o que é humanização. Claramente o papel do profissional de saúde é um legado para as próximas gerações, de exemplo de altruísmo competente. Gente que demonstra competência, mas também a disponibilidade para com os outros.

Num artigo que escreveu para a União das Misericórdias, elegeu as mulheres como as heroínas desta batalha.Vamo-nos entender: eu estava a preparar uma peça para a União das Misericórdias sobre uma mudança de paradigma, que tem que ver com um número já muito elevado de mulheres que estão à frente - em 2020 temos 68 provedoras, um cenário que não existia há uns anos. E são mulheres cuja maioria ainda mantém a sua atividade profissional, que consegue conciliar atividades exigentes - como eu tenho e tive enquanto diretora da faculdade, mantendo a provedoria da Santa Casa - ao mesmo tempo que mantém o resto das funções de mães de família e donas de casa. Fazemos aquilo que as mulheres sabem fazer, que é muita coisa ao mesmo tempo.

"Uma das características fundamentais das mulheres é que são cuidadoras."Estava, portanto, a falar das mulheres que trabalham nas Misericórdias...Elegi as mulheres porque quando olhamos para este contexto de gente que cuida de todos estes utentes, toda esta gente que está sujeita a esta infeção, que está nos lares, que trata dos idosos, claramente que são mulheres. Grande percentagem das técnicas sociais são mulheres, a grande percentagem na enfermagem ainda são mulheres, as auxiliares de ação médica são mulheres, as cozinheiras são mulheres, a psicologia tem muitos homens mas também tem mulheres, na direção e no campo das redes de cuidados continuados estão mulheres. Emerge aqui uma população que tipicamente e caracteristicamente cuida.

Uma das características fundamentais das mulheres é que são cuidadoras. Não nos podemos esquecer que as mulheres são as mães dos homens. Se temos homens de jeito devem às mulheres que são suas mães.Pegou nas palavras do cardeal Tolentino de Mendonça quando ele diz que é a esperança que faz andar o mundo para lhe dizer que ele está errado...

A mulher materializa a esperança. E quando ele diz que a coisa mais parecida com os olhos de Deus são os olhos de uma mãe, também são os olhos das mulheres. E eu digo que são as mulheres das Misericórdias que olham e cuidam e nós, neste momento, devemos-lhe um reconhecimento muito grande. Mas também a nível dos hospitais. Mais de 80% da nossa população que cuida no dia-a-dia nas Misericórdias e que, nesta altura, está na frente da batalha, têm de limpar os espaços, tratar da comida, dos aspetos sociais... Não hipovalorizo o valor dos homens, nem quero só hipervalorizar o papel das mulheres, mas de facto neste aspeto de cuidar é inato nas mulheres.

Não é um discurso feminista, é um discurso realista?Não é feminista.Eu não tenho um discurso feminista, nem nunca tive. Acho que os discursos feministas têm de ser focados na igualdade de oportunidades.Tem de haver igualdade de oportunidades e isso é o que não tem havido naquilo que é a discussão de género. As mulheres não têm tido as mesmas oportunidades e, quando se fala disso, fala-se de direitos humanos.

Mas não se define como feminista? Pelo que eu li de si, diria que é feminista e não estou a ser pejorativa.Não, eu percebo o que está a dizer. Quando dei o artigo a ler antes de o enviar para a publicação, também me disseram que, se não fosse nesta altura, poderia ser considerado um discurso feminista.

"Eu não preciso de queimar soutiens até porque só tenho uma parte do soutien porque tive cancro de mama."Mas já chegou a dizer que as mulheres do norte é que deviam mandar no país...Ah, mas isso não tenha dúvida, foi o Miguel Esteves Cardoso que disse e lá tinha a sua razão. São mulheres com pelo na venta, como se costuma dizer. Já começou com a D. Antónia Ferreira. As mulheres do norte são mulheres muito sofridas...

As mulheres do sul podem ficar zangadas...Não, não ficam nada zangadas, nem é um discurso feminista, eu acho que isto tem de ser feito.Mas é feminista ou não?Eu não sou feminista, mas tenho a noção exata ecusta-me, e sofro, com a diferença de oportunidades que as mulheres têm em relação aos homens.

Para que uma mulher se afirme em posições de chefia pode ter a certeza de que tem de ser muito melhor do que qualquer homem que possa assumir o mesmo posto. E não é por qualquer outra razão que só ao fim de 190 anos é que a Faculdade de Medicina do Porto teve uma mulher como diretora.

Não faz mal sermos feministas...Não, não.Ser feminista hoje em dia já não é andar a queimarsoutiensCostumo dizer que não é preciso queimarsoutiens, eu não preciso de queimarsoutiensaté porque só tenho uma parte do

soutienporque tive cancro de mama e, portanto, dou muito valor ao que é cuidar nestas situações de fragilidade."Precisamos de muito pouco na vida para sermos felizes. E muito pouco de materialidade", diz Amélia Ferreira, lembrando a lição que aprendeu com a doença oncológica.

© Pedro Granadeiro/Global ImagensQue idade tinha quando teve cancro de mama?Tinha 50 anos e correu tudo bem.Um dos aspetos que eu nunca mais me esqueço é a perceção daquilo que nos fica, de que precisamos de muito pouco na vida para sermos felizes. E muito pouco de materialidade. Temos a noção de que não morremos, não é?

Confrontados com a morte, vemos exatamente isso. Um outro aspeto que também nunca mais me esqueço é que estive sempre a trabalhar e que a primeira aula que dei depois de ter passado pela quimioterapia, radioterapia, mastectomia, tudo isso, foi uma aula sobre tórax e sobre mama. Acho que foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.

Consulte Mais informação: Diário de Notícias »

Julgo que cuidar é inato da mulher e que tal facto advenha da sua qualidade de mãe. Nos tempos correntes, o cuidar vai sendo entendido como forma de objectar afectos, segurança e proteção a quem amamos. Cuidamos porque amamos. Tudo o que se diz antes da adversativa “mas” não conta. femenazitas.. ja começa

Não li toda a matéria, mas 'cuidar ' não é 'inato ' às mulheres. Isto é construção social machista.

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Não, o vírus (ainda) não trouxe o socialismo de voltaLia-se há dias num editorial do Financial Times: 'Será necessário pôr em cima da mesa reformas radicais - invertendo a orientação política prevalecente nas últimas quatro décadas. Os Estados terão de ter um papel mais activo na economia. Devem encarar os serviços públicos como investimentos e não como um peso, e procurar formas de tornar os mercados de trabalho menos inseguros. A redistribuição estará novamente na ordem do dia; os privilégios dos ricos serão postos em causa.' O jornal que tantas vezes defendeu a liberalização, as privatizações e a desregulamentação dos mercados antecipa agora a necessidade de pôr tudo isto em causa, num regresso anunciado a uma espécie de social-democracia radical. Nem trará !!! Senta que de pé cansa🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣🤣

Por agora não haverá aulas e a covid-19 não permite ainda outros cenáriosSem ter garantias por parte de epidemiologistas quanto ao risco de contágio nos próximos tempos, Governo só terá certezas de que em Abril não vai ser possível ter aulas presenciais nas escolas.

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