Sofia Matos, Opinião

Sofia Matos, Opinião

Eu também não. Mas… e se?

Eu também não. Mas? e se?

08/05/2021 02:28:00

Eu também não. Mas? e se?

O movimento americano #MeToo chegou a Portugal e convoca-nos para um debate ao qual não podemos ficar indiferentes. Para uma reflexão sobre o tema, suas consequências na vida das vítimas e a forma como podemos mitigá-lo, é imperioso afastar qualquer tipo de fundamentalismo e pré-conceitos. Essencialmente radicalismos de género, feminismos obtusos e outras ideias preconcebidas que nada acrescentam à discussão.

Em nenhum momento fui alvo de assédio sexual.Nunca saberei, mas suspeito que a alteração de alguns comportamentos e da minha forma de estar, me tenha poupado a algum episódio dessa natureza. Uma espécie de medida preventiva. Uma parvoíce, dirão. Com toda a razão.

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Por viver num mundo enxameado de homens, a certa altura falava e comportava-me como um deles na expectativa de ser tratada com igual respeito. Ninguém me disse para o fazer. Ninguém mo aconselhou. Simplesmente fui percebendo que essa era a forma de sobreviver num meio onde era muito feliz, mas onde iria sempre precisar de provar o dobro para que me reconhecessem como um par.

É isso que devemos exigir às vítimas? Que estejam permanentemente à defesa? Ou que, sem se aperceberem, se descaracterizem em ordem a alcançarem os seus objetivos sem embaraços? Que se façam de despercebidas e que prossigam na expectativa de que não volte a suceder? Não, não e não. headtopics.com

Ao longo das últimas semanas foram inúmeros os meios de comunicação social que deram o pontapé de saída para o debate do assédio sexual depois de, em 2015, a generalidade dos portugueses ter ridicularizado o crime de importunação sexual, reduzindo-o ao parolo piropo. Já na altura se estava a falar de algo muito sério - e o Bloco de Esquerda tinha razão. Como, aliás, hoje se vê.

Na senda desses debates, vi aduzir-se um conjunto de ideias para combater o assédio sexual, mas, uma vez mais, continuamos a conduzir todas as importantes discussões sobre o comportamento humano para o patamar da repressão, ao invés de atuarmos no patamar da prevenção destes fenómenos e de proteção das vítimas.

Fará sentido autonomizar o crime de assédio sexual, como se fez com a violência doméstica? Creio que sim. Devemos estender os prazos de prescrição sabendo que, nos crimes de natureza sexual, as vítimas reprimem essas memórias ou hesitam em denunciar o sucedido por temor reverencial, especialmente nos contextos laborais? Talvez sim.

E dado que se trata de um crime que dá origem a quadros de depressão e destresspós-traumático, não devemos atuar ao nível do apoio às vítimas? Claro que sim.É impreterível acautelar as falsas denúncias e proteger os agressores que, afinal, não o são? Também. headtopics.com

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Mas, antes de tudo, é impreterível sensibilizar a sociedade para um assunto que, não raras vezes, é menorizado; para um comportamento que é permanentemente normalizado. É por tudo isto que devemos agradecer à Sofia Arruda, à Catarina Furtado, à Leonor Poeiras e a todas as outras pessoas que, sabendo do seu alcance público, dão voz a todas as vítimas anónimas.

Então, atuemos a jusante! Falemos sobre alterações legislativas sim, mas de âmbito preventivo.Ao código laboral, por exemplo. Lancemos os dados para a introdução de mecanismos de denúncia dessas experiências, mas que impeçam qualquer possibilidade de retaliação do eventual agressor hierarquicamente superior à vítima.

Exijam-se planos de contingência nas estruturas empresariais e o cumprimento cabal de códigos de conduta.Sejamos, em todas as nossas intervenções, em todos os contextos, nos círculos sociais, absolutamente intolerantes com avictim blaming

Mulheres, promovam a sororidade, sem radicalismos.Pais e mães, sejam absolutamente intransigentes com todas as formas de misoginia.O Estado que acorde e faça-se mais nas escolas por aqueles que estão destinados à ignorância.Um abraço à Joana Emídio Marques. headtopics.com

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