Ashraf Ghani declarado vencedor cinco meses depois das eleições presidenciais no Afeganistão

O adversário de Ghani ameaçou formar um Executivo paralelo caso os resultados não refletissem as suas preocupações em relação a alegadas fraudes. 

O Presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, foi declarado vencedor das eleições de setembro pela Comissão Independente de Eleições esta terça-feira, ganhando um segundo mandato. A divulgação dos resultados foi repetidamente adiada devido a acusações de fraude e de má conduta. Tudo se complica com ameaças de formação de um Executivo paralelo e por se estar no meio de negociações de paz com os talibãs. 

Segundo a comissão, Ghani arrecadou 50,64% dos votos nas eleições de 28 de setembro, face aos 39,52 % dos votos de Abdullah Abdullah, chefe do Executivo afegão – o primeiro com 923 592 votos, segundo a Associated Press, e o segundo com 720 841 votos. Dos 2,7 milhões de votos iniciais – num total de 9,6 milhões de eleitores aptos a votar -, apenas 1,8 milhões foram contabilizados devido a irregularidades, o que significou a taxa de afluência às urnas mais baixa de sempre no Afeganistão. 

Os resultados foram anunciados após uma auditoria a 15% do número total de votos, alegando Abdullah e outros candidatos que mais de 100 mil foram registados no sistema horas após se ter finalizado a votação – e, nalguns casos, semanas e meses depois. Por outro lado, a comissão de eleições defendeu que as irregularidades encontradas se devem a erros humanos quando definidas as horas e as datas dos dispositivos que registaram os votos. 

Abdullah partilhou o poder com Ghani nos últimos cinco anos, naquilo que foi apelidado como um Governo de unidade nacional formado por pressão dos Estados Unidos, após acusações de fraude massiva nas eleições de 2014, em que ambos se declararam vencedores. 

E o mesmo parece estar a acontecer meia década depois. Os apoiantes de Abdullah acusaram a comissão de eleições de favorecer Ghani na contagem dos votos e chegaram mesmo a ameaçar formar um Governo paralelo se os resultados não refletissem as suas preocupações, diz o New York Times

“Mesmo que ponham uma faca na minha garganta, mesmo que me enforquem, não vou aceitar um anúncio [dos resultados] baseado numa fraude”, disse Abdul Rashid, apoiante de Abdullah e vice de Ghani, citado pelo diário nova-iorquino, num encontro na semana passada. “Se anunciarem um Governo baseado na fraude, anunciaremos um Governo paralelo”. No entanto, ainda não houve indicações de que Abdullah não irá aceitar os resultados divulgados esta terça-feira. 

Caso o impasse permaneça, adensar-se-á a crise política num momento em que os EUA procuram um acordo com os talibãs, visando retirar as suas tropas do Afeganistão em troca de várias garantias de segurança e com a promessa que o grupo armado entrará em negociações de paz com o Governo afegão. Durante o mês de setembro, altura da ida às urnas, os talibãs realizaram um número recorde de ataques com o objetivo de destabilizar as eleições.