Por que o Brasil continuou um só enquanto a América espanhola se dividiu em vários países? - BBC News Brasil

BBC News Brasil conversou com historiadores para entender causas que levaram à unificação do Brasil e à fragmentação de seus vizinhos.

22/01/2021 06:24:00

Uma das causas tem a ver com a distância geográfica entre as cidades das antigas colônias e a forma como eram administradas por suas respectivas metrópoles. ArquivoBBC

BBC News Brasil conversou com historiadores para entender causas que levaram à unificação do Brasil e à fragmentação de seus vizinhos.

Temor socialPreocupações econômicas e sociais também contribuíram fortemente para assegurar a unidade do Brasil.Segundo Graham, fazendeiros e homens ricos das cidades acabaram aceitando uma autoridade central por dois motivos: a ameaça de desordem social e o apelo de uma monarquia legítima.

Com 126% dos leitos de UTI ocupados, Hospital de Clínicas de Porto Alegre tem fila por respiradores - Saúde - Estadão Depressão não é tudo igual: conheça os tipos menos comuns e que impactam na qualidade de vida Doria nega que filho tenha feito festa e causado aglomeração e entra com queixa-crime contra vizinha que fez acusação

Um possível desmembramento do Brasil em diferentes países poderia colocar em xeque o firme controle social desejado pelos proprietários de terras e escravocratas. Inicialmente, eles achavam que conseguiriam manter o respeito e a obediência, mas revoltas populares provaram o contrário, na prática. No Haiti, por exemplo, a independência significou o fim da escravidão.

Embora o Brasil tenha conseguido sua independência de Portugal sem recorrer à luta militar generalizada, os líderes regionais procuravam maior liberdade em relação à capital, o Rio de Janeiro, diz Graham.Mas, com o tempo, eles perceberam que essa vontade de reivindicar um autogoverno regional ou a independência completa do governo centralizado poderia enfraquecer sua autoridade, não somente sobre os escravos, mas também sobre as classes inferiores em geral. Ou seja, temiam a desordem social. headtopics.com

"É importante lembrar que o Brasil era um país de escravos. Eles compunham grande parte da população. Era muito perigoso que as classes dominantes começassem a brigar entre si e colocassem em risco sua legitimidade", destaca Graham.

"Essa classe dominante temia que esses escravos pudessem aproveitar-se de suas divisões internas para se rebelar", acrescenta.Na América Espanhola, por outro lado, diz o historiador americano, "as elites (...) aprenderam que poderiam lidar muito bem com uma população irrequieta. Todos os países hispano-americanos tomaram medidas que objetivavam terminar com a escravidão, possivelmente para diminuir o perigo da revolta escrava. Mestiços (e alguns mulatos, como na Venezuela), tinham o comando de forças militares e eram frequentemente recompensados com posse de terras tomadas dos monarquistas", diz.

Estatísticas sobre o comércio de escravos embasam tal hipótese.Legenda da foto,Ilustração: Cecilia TombesiEntre 1500 e 1866, a América Espanhola recebeu 1,3 milhão de escravos trazidos da África. No mesmo período, desembarcaram no Brasil 4,9 milhões, segundo dados da The Trans-Atlantic Slave Trade Database, um esforço internacional de catalogação de dados sobre o tráfico de escravos - que inclui, entre outros, a Universidade de Harvard.

O levantamento foi possível porque os escravos eram uma mercadoria, registrada na entrada e saída dos portos, sobre a qual incidia cobrança de impostos. Nenhum outro lugar do mundo recebeu tantos escravos.Crédito,Museu do PradoLegenda da foto, headtopics.com

Jovem resgata bicho-preguiça de poste de energia em Guarujá, SP Filmes restaurados de Chaplin serão exibidos em cinemas de todo o mundo Tragédia de Mariana: moradores esperam há mais de 5 anos por início de reconstrução de comunidade em Barra Longa

Levantamento de 2 de maio, ocorrido em 1808 em Madri, e duramente reprimido foi o estopim para Guerra de Independência EspanholaFragmentação em vários paísesMas por que as fronteiras dos países recém-independentes na América Espanhola não se mantiveram as mesmas das dos quatro vice-reinados? Ou seja, por que houve tanta fragmentação?

Explica Ávila Rueda: "Na época colonial, o conceito de fronteira era distinto do dos Estados modernos. O que havia era um sistema de jurisdição, não de fronteiras. E as diferentes jurisdições às vezes se sobrepunham umas às outras".

Ele cita o caso do vice-reinado de Nova Espanha (território que compreende parte dos Estados Unidos, México e América Central)."Em termos de governo, o vice-rei tinha controle sobre praticamente todo o território, salvo as regiões mais ao norte, que eram independentes neste sentido. Mas, a nível fiscal, o governo do México tinha controle sobre essas regiões. Já em relação a questões jurídicas, a gestão era totalmente diferente".

"Assim, houve conflitos bélicos muito fortes para delimitar essas fronteiras no século 19, inclusive após a independência", acrescenta.Ávila Rueda lembra que, com a abdicação de Fernando 7º, ocorre um processo em que os territórios provinciais passam a lutar por "mais autonomia". headtopics.com

"Julgamos o passado a partir do nosso ponto de vista atual. Achamos que o vice-reinado de Nova Espanha se manteve como um país unido, que é o México atual. Mas nos esquecemos que depois da independência, surgiu o império mexicano, que incluía a atual América Central. Posteriormente, com a dissolução do império mexicano, se estabeleceram a federação mexicana e a federação centro-americana, que mais tarde se desintegraria em outros países", diz.

Crédito,Museu Histórico Nacional da ArgentinaLegenda da foto,Argentino José de San Martín é também conhecido como o libertador de Argentina, Chile e Peru"Houve um processo de fragmentação na América Espanhola. Eventualmente, algumas dessas províncias formam confederações para ter força militar e se defender de outros inimigos. Ou são unidas à força, como fez Simón Bolívar", acrescenta.

A epidemia e a política - Opinião - Estadão Eduardo ‘bananinha’ Bolsonaro vai passear; adivinhe quem está pagando - ISTOÉ Independente Pai e filho morrem de Covid-19 em SC e são enterrados no mesmo dia

Graham concorda. "Se você vai se tornar independente da Espanha, por que continuaria a se submeter aos mandos e desmandos de Buenos Aires, por exemplo? A divisão por vice-reinos era burocrática. E as fronteiras atuais dos países da América Latina demoraram para ser consolidadas. Não era possível prevê-las antes de 1810, pois resultaram de disputas internas após a independência", explica.

Mas é importante lembrar que também houve na América Espanhola planos de unificação, que não avançaram.Crédito,Instituto Geográfico Militar de ChileLegenda da foto,Militar e estadista, Bernardo O'Higgins foi uma das principais figuras militares fundamentais do movimento de independência do Chile

Em 1822, Simón Bolívar e José de San Martín, duas das figuras mais importantes da descolonização da América Espanhola, reuniram-se na cidade de Guayaquil, no Equador, para discutir o futuro da América Espanhola.

Enquanto Bolívar era partidário da unidade das ex-colônias (ele forçou a unificação da Colômbia e da Venezuela) e a formação de uma federação de repúblicas, San Martín defendia a restauração da monarquia, sob a forma de governos liderados por príncipes europeus. A ideia de Bolívar voltou a ser discutida no Congresso do Panamá, em 1826, mas acabou rejeitada.

E se Fernando 7º tivesse feito o mesmo que D. João 6º e transferido a corte às Américas, o mapa da América Latina seria diferente do que é hoje?Em um artigo, o historiador americano William Spence Robertson, já falecido, cita a frase de um observador espanhol em 1821: "O México não aceitaria as leis que fossem sancionadas em Lima; nem Lima aceitaria as leis que fossem sancionadas no México".

Crédito,Legenda da foto,Agustín de Iturbide foi declarado imperador do México como Agustín I após independência da Espanha"A principal pergunta, portanto, é onde ele escolheria se estabelecer. Não acredito que o México permaneceria leal a um rei estabelecido em Lima e não em Madri", diz Graham.

Crédito,World Digital LibraryLegenda da foto,Documento "Declaração ao Mundo" ou "Notas para a História" foi encontrado junto ao corpo de Agustín de Iturbide após sua execução; sangue sobre papel é do próprio Agustín

"Mas certamente (se Fernando 7º tivesse se transferido às Américas) haveria menos divisões do que, na verdade, ocorreu", acrescenta.Isso porque os reis oferecem legitimidade.Tanto é que, na Argentina, quando um congresso em 1816 declarou a independência das "Províncias Unidas", Juan Martin de Pueryrredón, nomeado diretor dessa entidade, tentou, nos três anos seguintes, em vão buscar alguém na Europa com vínculo real para se tornar rei das Províncias Unidades do Rio da Prata.

Como uma princesa austríaca ajudou a articular a Independência do Brasil - e o que isso tem a ver com o Museu Nacional"A própria mulher de Dom João, Dona Carlota Joaquina, tinha vontade de se tornar rainha do Prata", lembra Murilo de Carvalho.

Já no México, quando as cortes espanholas se recusaram a reconhecer a independência mexicana e a permitir que um membro da realeza aceitasse o trono do império mexicano, Agustín Iturbide, um dos mentores da independência, forjou uma eleição ao fim da qual foi coroado imperador, como Agustín 1º.

No Peru, também foi aventada a possibilidade de um príncipe espanhol liderar uma monarquia independente.Crédito,Coleção do Banco Central da VenezuelaLegenda da foto,Militar liberal e líder político venezuelano, Simón Bolívar foi um dos primeiros a lutar pela descolonização da América Espanhola

Rebeliões no BrasilMas o processo de unificação territorial no Brasil tampouco foi totalmente pacífico. Houve movimentos de caráter emancipacionista em Minas Gerais (1789), na Bahia (1798), em Pernambuco (1817).No entanto, essas revoltas foram mais fomentadas por um sentimento de autonomia do que propriamente por um desejo de ruptura entre a colônia e a metrópole.

Crédito,Museu Mariano ProcópioLegenda da foto,Tiradentes foi líder da Inconfidência Mineira, mas revolta não tinha desejo de libertação de todo território brasileiroUm exemplo emblemático disso foi a chamada Inconfidência Mineira, liderada por Tiradentes em Minas Gerais (1789). Não havia nessa conspiração antimetropolitana nenhum desejo de libertação de todo o território.

Quando Dom Pedro 1º declarou a Independência do Brasil, em 1822, por exemplo, a maior parte das províncias do norte foram contra e permaneceram leais a Portugal, até defrontarem-se com uma força vinda do Rio de Janeiro.Ainda assim, como lembra Graham, "mesmos os grupos do sul que declaram sua aliança a D. Pedro 1º, em meados de 1822, não significavam o triunfo do nacionalismo. Ao contrário, eles simplesmente preferiam o domínio dele, com a promessa de autonomia local, ao domínio das cortes portuguesas, que ameaçava essa autonomia".

Ávila Rueda acrescenta ainda que, "como na América portuguesa não houve uma guerra de independência e sim uma continuidade com a transferência da corte, o governo do Rio de Janeiro tinha mais força para suprimir essas rebeliões".

"Em contrapartida, o governo do México não tinha força suficiente para evitar o desmembramento da América Central. Tampouco o governo de Buenos Aires em relação a Uruguai ou Paraguai", acrescenta.'Acordo de interesses'

Segundo a historiadora brasileira Lilia Schwarcz, "a independência do Brasil foi uma solução de compromisso entre as elites, no sentido de primeiro evitar uma mudança estrutural na então colônia que se tornaria um país e evitar grandes conturbações sociais", diz.

"Houve um ajuste entre as várias elites locais no sentido de preservar a escravidão, evitar o formato de uma revolução, inclusive sabendo do que havia ocorrido na América Espanhola e conseguir manter o país unificado", acrescenta.

Graham concorda. "O governo central não foi imposto às pessoas influentes ou até mesmo "vendido" a eles. Eles (a elite brasileira) o escolheram", assinala."Eles procuravam legitimidade porque, sem ela, sua autoridade local permanecia relativamente fraca. Eles desejavam fortalecer a hierarquia porque ela validaria a sua própria posição local predominante. Para alcançar esses objetivos, eles construíram um estado central, simbolizado no imperador. A monarquia tinha sua utilidade".

Crédito,Legenda da foto,Sentença contra líderes da Inconfidência Mineira"A presença do imperador foi fundamental. As elites pretendiam que o imperador fosse uma espécie de símbolo a unificar as diferentes províncias e que, de alguma maneira, ele fizesse uma passagem não tão convulsionada como no restante da América Espanhola. Sabemos que a história não foi bem assim, mas foi o que aconteceu no momento da independência", diz Schwarcz.

Por fim, a opção por um governo central, além de afastar o espectro de uma anarquia social, também favorecia estender o poder dessas elites, uma vez que cabia a elas as indicações aos cargos públicos, como oficiais da Guarda Nacional, delegados de polícia e juízes.

"Eles vieram a considerar o governo central como apropriado e útil para fins pessoais", diz Graham.Já no fim do século, com a unidade do Brasil já assegurada e a escravidão abolida, as elites já não precisavam mais "de um símbolo vivo do estado" para estabelecer sua legitimidade.

O império acabou destronado pelo Exército, que proclamou a república quase sem disparar um único tiro.*Com ilustrações de Cecilia Tombesi e Kako AbrahamHistórias relacionadasComo uma princesa austríaca ajudou a articular a Independência do Brasil - e o que isso tem a ver com o Museu Nacional

6 setembro 20187 setembro 2020Principais notícias'Governos que não responderam bem à pandemia serão responsabilizados nas urnas', diz professora de Oxford Consulte Mais informação: BBC News Brasil »

Um ano de Covid-19 em São Paulo | São Paulo | G1

Brasil nesse sentido é mais parecido com a Espanha doq com Portugal, a única identidade que unia todo o brasileiro era a fé católica, hoje tem todo tipo de fé n existe mais uma unidade, o nordestino o paulista o carioca o mineiro os sulistas são bem separatistas Porquê tínhamos um cara chamado: José Bonifácio de Andrada e Silva, O fundador do Brasil!

se manteve por causa do Imperador que era uma figura centralizada e conseguiu manter a união. Pq somos uma grande nação, quer dizer, antes do PT éramos.. Em geral, a cultura hispânica não oferece uma base sólida para a realização da independência e da democracia. Quem dera a Inconfidencia mineira tivesse sido exitosa, hoje estaríamos livres dessa corja de Brasília.

A BBC adora reciclar esse assunto. portugal é um povo e uma nação, isso os mantém unidos, já a espanha é uma nação, mas com diversos povos, por isso existem alguns grupos separatistas lá. A Espanha tinha, ainda tem, movimentos separatistas, enquanto que Portugal não, porque tinham sentimento de nação. Nunca é tarde pra repensarmos!!!!

Somos diferentões (falamos português). SQN. Em resumo: preguiça.