Obra-mestra do poeta Rimbaud ganha novas traduções - Aliás - Estadão

Obra-mestra do poeta Rimbaud ganha novas traduções

24/10/2021 09:00:00

Obra-mestra do poeta Rimbaud ganha novas traduções

‘Um Tempo no Inferno’ nos lembra que é preciso supor uma saída nem que ela seja pelo caminho mais duro

23 de outubro de 2021 | 15h00O que a poesia pode fazer?Antes disso um prólogo sobre os bastidores deste texto: por muitos minutos, ao ler a prosa poética de Rimbaud na tradução e coleção bilíngue produzida por Julio Castañon Guimarães para a editora Todavia, Um tempo no inferno e

Alto, médio ou baixo? Os riscos de contrair covid-19 nas festas de fim de ano, segundo um grupo pesquisadores espanhóis Doria vence as prévias do PSDB e será o candidato do partido a presidente da República Masturbação em 'Um Lugar ao Sol' não foi a 1ª em novelas l SEMANA POP l g1

Iluminações(2021), folheio outra edição do poema, desta vez da N-1 Edições, que acompanha o estudo de Larissa Drigo,Desejos Ingovernáveis(2021), com outra tradução do poema, neste livro, ficou como"Uma estação no inferno". Depois dessas leituras todas, tinha neste papel apenas as seis palavras do primeiro parágrafo. 

Leia TambémJohn Le Carré deixou um romance inédito antes de morrer; 'Silverview' faz jus à sua obra?Agora repleta de outras, mas antes, a página virtual em branco me fez perguntar genuinamente o que pode um texto como o do poeta francês. Conseguiria explicar a escrita de um texto na década de 1870, mas e a leitura dele nos anos de 2020? O que pode este texto? Ou ainda mais feroz: o que podem todos os textos como este, do passado ou de hoje?  headtopics.com

Ler um livro aqui e agora implica colocá-lo em contato com a realidade desse contemporâneo. Aliás, dizem muitos, que a realização da arte está justamente aí: a capacidade de se atualizar não pela maleabilidade ou por alguma gratuidade que a deixaria valer tanto quanto quisessem os leitores deste tempo ou de outro, ao contrário, assim pensamos seus defensores, ela teria uma característica própria que superaria os limites do real, porque guardaria algo mais profundo – ainda humano, é claro – uma resistência profunda que nega ser reduzida a uma utilidade do contexto ou convicção. 

Mas não só de defesas vivem os réus, mas da evidência de suas provas e, me parece, o texto poético está em maus lençóis diante do seu júri. Vamos à exposição do caso e do réu específico deste texto: a poesia de Rimbaud. 

Quando escrevo para um jornal sempre surgem duas forças aparentemente irreparáveis: a primeira é que a pauta esquenta-se e esfria-se ao sabor do pêndulo pouco artístico do mercado cultural; a segunda, é que o mercado cultural ainda é e sempre foi o espaço que legitimou a produção artística como parte do cotidiano e, por isso, presente na vida de tantas pessoas. Ou seja, convivo (penso que todos os que trabalham com isso) com duas condições que forçam o lugar cotidiano da cultura e o objeto artístico, qualquer que seja, a se estreitarem num corredor que vai espremendo-os, conduzindo-os e, por fim, modelando ambos. Deste cenário já extremamente incriminatório, a poesia de Rimbaud aparece no banco dos réus. Queria propor um jogo com o leitor e com a leitora, pensar uma situação lúdica para testar o que falei mais acima.

Vamos ao jogo: tentar acompanhar um trecho desse julgamento.A palavra à Acusação Traz a primeira prova contra o acusado:"Que era eu no século passado: só me encontro hoje. Sem andarilhos, sem guerras vagas. A raça inferior cobriu tudo — o povo, como se diz, a razão; a nação e a ciência. headtopics.com

João Doria abre a terceira via - ISTOÉ Independente Vídeo mostra balsas usadas no garimpo ilegal sendo queimadas no rio Madeira Eleito o melhor da Libertadores, Gabigol diz: 'Nem lembrava como era perder um título, dói muito’ - Esportes - Estadão

Oh! a ciência! Retomou-se tudo. Para o corpo e para a alma, — o viático, — temos a medicina e a filosofia, — os remédios caseiros e as canções populares arranjadas. E as diversões dos príncipes e os jogos que eles proibiam! Geografia, cosmografia, mecânica, química!...

A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo caminha! Por que não giraria?" (p. 13)O poeta recalca o ódio contra a utilidade e contra o progresso, contra a ciência! É um negacionista! O que isso tem a ensinar a quem leia? Debate-se contra tudo de tal forma que não propõe saída alguma, simplesmente aprofunda a sensação de indiferença: se o poeta não informa a verdade, se o poeta não ensina a viver poeticamente dentro da vida real, para que serve hoje? Temos pouquíssimo tempo para terminar de ler, depois temos de levar o cachorro para passear, finalizar alguns e-mails do trabalho e, ainda por cima, precisamos nos entreter. Não há tempo para aprofundar o pessimismo, ao invés disso é necessário construir diante de tanta destruição.

    O que a poesia pode fazer? Nada, aliás, não haveria sequer motivo para ler poesia.A palavra à DefesaTraz a prova que redime o acusado:"Que era eu no século passado: só me encontro hoje. Sem andarilhos, sem guerras vagas. A raça inferior cobriu tudo — o povo, como se diz, a razão; a nação e a ciência.

Oh! a ciência! Retomou-se tudo. Para o corpo e para a alma, — o viático, — temos a medicina e a filosofia, — os remédios caseiros e as canções populares arranjadas. E as diversões dos príncipes e os jogos que eles proibiam! Geografia, cosmografia, mecânica, química!... headtopics.com

A ciência, a nova nobreza! O progresso. O mundo caminha! Por que não giraria?" (p. 13)O poeta não aceita a liberdade condicional, mas a quer completa, ele sabe, ao fim e ao cabo, que a vida não cabe nas fórmulas científicas de felicidade e realização. Os antidepressivos, os ansiolíticos, remédios para emagrecer ou para trabalhar mais e melhor, a poesia não segue o ritmo das obrigações, muito ao contrário nos liberta do fardo do trabalho e da diversão obrigatória, para que tenhamos chance de encarar uma humanidade diferente – aquela que nos coloca a todos como irmãos em espécie.

O que a poesia pode fazer? Tudo, aliás, haveria todos os motivos para ler poesia todos os dias, a todo instante.    De volta ao jornal    Ofereço à leitora e ao leitor esse jogo como pretexto. Pretexto para demonstrar a força da poesia de Rimbaud. O texto poético do francês que ressurgiu nos últimos meses em novas versões: com seleção de cartas e textos críticos de artistas contemporâneos de Rimbaud, como é o caso da edição da Todavia; além do caso também muito bem interessante de Desejos Ingovernáveis (2021), de Larissa Drigo, e o ensaio da pesquisadora e professora sobre a Comuna de Paris e Rimbaud, colocando o poema como um manifesto histórico-político que teve de ser poético para poder ser efetivamente político num período que a política era o recurso por excelência para aprisionar uns, violar outras e libertar poucos.

Porquinho amarrado com bandeira do Palmeiras no Rio é resgatado por protetores de animais Torcedores do Palmeiras fazem festa e aglomeração nos arredores do Allianz Parque após vitória da Libertadores Doria vence prévias para disputar a Presidência pelo PSDB em 2022 - Política - Estadão

    A poesia de Rimbaud nos lembra a todos que, no fim, é preciso sempre supor uma saída nem que ela seja pelo caminho mais infernal, pelo corredor mais estreito – enfim, para expandi-lo com as próprias mãos. A fabulação, ou melhor, a imaginação poética sustenta sua importância porque nos interrompe em meio à violência automática e transformada em cotidiano. Ela atualiza uma chamada de atenção:"não serei mais capaz de pedir o reconforto de uma bordoada" (p. 21). Ler a poesia de Rimbaud nos faria, no limite, tornar a sua afirmação anterior numa pergunta de hoje: afinal, somos capazes de pedir a tal bordoada?

Consulte Mais informação: Estadão »

Após receber medalha, Bolsonaro é vaiado e chamado de genocida na Câmara

Sob protestos de deputados da oposição, presidente foi condecorado por Arthur Lira (PP-AL)

PQP Os capachos do Estadão querem reinventar a roda. O mundo inteiro diz OBRA-PRIMA.

John Le Carré deixou um romance inédito antes de morrer; 'Silverview' faz jus à sua obra? - Aliás - EstadãoJohn Le Carré deixou um romance inédito antes de morrer; 'Silverview' faz jus à sua obra? (via EstadaoCultura)

SC: Obra para alargar praia aumenta aparições de tubarões em Camboriú - ISTOÉ IndependenteAs obras para alargar a faixa de areia na Praia Central de Balneário Camboriú, em Santa Catarina, tem causado um aumento de registros de tubarões no local. As informações são do g1. Desde agosto, quando a draga passou a operar no local, ao menos 16 tubarões de médio porte foram avistados no mar. A contagem […] O alargamento da praia acabou beneficiando a fauna. Pedir para o Veio da Van ir tomar banho de mar na obra dele é pedir demais?

A outra grande obra de Charles Darwin que poucos conhecem (e não é sobre a evolução) - BBC News BrasilNaturalista e biólogo britânico é conhecido até hoje por clássicos científicos como 'A Origem das Espécies' e 'A Origem do Homem e a Seleção Sexual', mas outro livro, sobre emoções e quase não publicado, continua a gerar polêmica. Tks. O garrancho

Último grande álbum dos Stones completa 40 anos e ganha reedição de luxoAs músicas foram gravadas há 40 anos mas nunca foram lançadas; o novo 'Tattoo You' traz ainda gravação ao vivo de show de 1982

Biografia mostra como W.G. Sebald transformou suas vivências e leituras em ficção - Aliás - EstadãoBiografia mostra como W.G. Sebald transformou suas vivências e leituras em ficção

John Le Carré deixou um romance inédito antes de morrer; 'Silverview' faz jus à sua obra? - Aliás - EstadãoJohn Le Carré deixou um romance inédito antes de morrer; 'Silverview' faz jus à sua obra? (via EstadaoCultura)