O sentido original do liberalismo

O sentido original do liberalismo

26/02/2021 14:20:00

O sentido original do liberalismo

Helena Rosenblatt investiga como uma palavra que, entre os romanos, estava associada à generosidade ou à liberalidade adquiriu carga política e econômica

A intervenção do presidente Jair Bolsonaro na Petrobras fez muitos apontarem o dedo: “Tá vendo, de liberal não tem nada, fez igualzinho a Dilma”. O uso de “liberal” nesse tipo de frase funciona ora como elogio, ora como ofensa. O sentido é o mesmo: “liberalismo”, na acepção consagrada no Brasil, virou a defesa de políticas econômicas pró-mercado. É o que Bolsonaro parecia ter trazido ao governo convocando um “liberal” made in Chicago, Paulo Guedes. É exatamente o oposto do que fez ao intervir no preço dos combustíveis. Que Bolsonaro não é liberal, todos sabíamos. Mas mesmo Guedes desperta dúvidas. Enquanto aqui o “liberal” fica à direita no espectro ideológico, lá nos Estados Unidos está à esquerda. Desde Franklin Roosevelt, a palavra se vinculou ao Partido Democrata, à defesa das liberdades individuais (como direito a voto, expressão, religião ou associação), à intervenção do Estado em favor de pobres, negros, mulheres, gays ou outras minorias. A verdade é que “liberal” é um termo dúbio.

'Se a facada tivesse sido fatal, hoje você teria como presidente Haddad ou Ciro', escreve Bolsonaro Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade em conversa com Kajuru, dizem advogados e parlamentares - Política - Estadão Em áudio gravado por Kajuru, Bolsonaro xinga e ameaça agredir senador Randolfe Rodrigues

A história da palavra ajuda a pôr ordem na confusão. “Seria bom saber do que estamos falando quando falamos de liberalismo”, escreve a historiadora Helena Rosenblatt emThe lost history of liberalism (A história perdida do liberalismo)

. Ela investiga como uma palavra que, entre os romanos, estava associada à generosidade ou à liberalidade adquiriu sentido político e econômico. Na origem, ser liberal era o oposto de ser individualista ou egoísta. A ideia de liberalismo não surgiu entre iluministas anglo-saxões — John Locke ou Adam Smith jamais empregaram a palavra. Foi uma tentativa de resguardar os valores da Revolução Francesa. “Não dá para falar na história do conceito sem considerar a França e suas revoluções sucessivas”, diz Rosenblatt. “A verdade é que a França inventou o liberalismo nos primeiros anos do século XIX, e a Alemanha o reconfigurou.” headtopics.com

Os principais formuladores dos princípios do liberalismo foram um casal: Benjamin Constant e Germaine de Staël. Ambos atribuíam um sentido moral à política, viam o poder como “perigoso, corruptor”. Queriam instaurar proteções contra a aristocracia e o cesarismo (nada disso impediu que Constant formulasse uma Constituição efêmera para Napoleão voltando do exílio). Rosenblatt é feliz ao desarmar dois equívocos em torno do liberalismo. Primeiro, associá-lo ao laissez-faire de economistas como Say ou Bastiat. “Liberais tinham um espectro de opiniões econômicas, eram frequentemente inconsistentes, quase nunca usavam o termo ‘liberalismo’ para designá-las.” Segundo, associá-lo necessariamente à democracia. Liberais desconfiavam do voto universal, achavam que resultaria em tiranos como Napoleão III. Só mudaram de ideia com Abraham Lincoln (a luta contra a escravidão é descrita como a “maior batalha liberal”).

PUBLICIDADEAs grandes nêmesis dos liberais eram, de um lado, os conservadores e a Igreja Católica; do outro, os revolucionários e o socialismo. Daí estarem ora à direita, ora à esquerda. A ambivalência levou vários a cair em esparrelas.

Liberais foram escravagistas, elitistas, machistas, imperialistas, colonialistas, racistas e até eugenistas. Mas também foram os responsáveis por instaurar o primeiro modelo bem-sucedido de educação pública, laica e universal na França (viam a educação como necessária ao voto, antídoto ao cesarismo). Na Alemanha, políticas liberais estabeleceram a vacinação obrigatória e sistemas de aposentadoria. Delas se originaram os movimentos progressistas que desembocaram no liberalismo de Roosevelt. Rosenblatt argumenta que os liberais se perderam depois da luta contra o nazifascismo. Encolhidos, adotaram uma visão reducionista — pela economia ou pela política — e expurgaram a herança franco-germânica. Surgiu então o liberalismo anglo-saxão que conhecemos e chegou até Guedes. “De certa forma, os liberais do século XX adotaram o argumento usado para atacá-los, de que o liberalismo era, na essência, uma filosofia individualista, até egoísta.” Para tirar o liberalismo dessa armadilha, é preciso conhecer sua história.

THE LOST HISTORY OF LIBERALISMHelena Rosenblatt, Princeton University Press Consulte Mais informação: Época »

Serrana está há 13 dias sem intubar; vacinação em massa contra o coronavírus termina hoje - Saúde - Estadão

Último caso de intubação foi em 29 de março na UPA da cidade. Resultados do Projeto S serão divulgados em maio pelo Instituto Butantan

Podiam publicar também um sobre o sentido original do comunismo. É uma forma de governo e sistema econômico muito mais desenvolvido, respeita a todos e não é homo homini lupus. Mas, sua tarefa é nos fazer engolir o liberalismo selvagem...