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De Bacurau aos extremistas: 'Por que vocês estão fazendo isso?' - CartaCapital

Filme flagra um vilarejo sob ataque dos americanos, num Nordeste de faroeste que foi separado do 'Brasil do Sul'

25.8.2019

Bacurau flagra um vilarejo sob ataque dos americanos, num Nordeste de faroeste que foi separado do ‘ Brasil do Sul’. Veja entrevista com diretores.

Filme flagra um vilarejo sob ataque dos americanos, num Nordeste de faroeste que foi separado do ' Brasil do Sul'

Rodado no Sertão do Seridó, na divisa entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, o filme, que estreia nos cinemas na quinta-feira 29, tem sido acolhido calorosamente em festivais internacionais como o de Cannes (recebeu o prêmio do júri na competição principal) e o de Lima (melhor filme, melhor direção e prêmio da crítica internacional), à parte a provocação endereçada aos irmãos do Norte.

Os diretores contam que a ideia surgiu em 2009, quando, participando de um festival com Recife Frio, assistiram criticamente ao tratamento etnográfico dado por documentaristas a personagens brasileiros tidos como “simples”. “Alguns escalam esse tipo de preconceito e condescendência. Vimos os cineastas repetindo esse modelo”, descreve Dornelles. “Essa foi a chave, porque não era a televisão comercial fazendo isso, que é básico. Eram pessoas legais, fazendo filmes”, completa Mendonça.

Como aconteceu com Aquarius, Bacurau apresenta um notável senso de timing em relação aos acontecimentos da chamada vida real. A trama de Aquarius, com cupins que corroem um edifício histórico do Recife, coincidiu com a deposição de Dilma Rousseff, que meses antes da estreia do filme descrevera o processo de impeachment como um fenômeno no qual a democracia era uma árvore corroída de dentro para fora por parasitas (cupins?). Em Bacurau, o Brasil levemente futurista é em tudo (e tragicamente) semelhante ao Brasil presente estraçalhado por Jair Bolsonaro. “Quando a gente filmou, Bolsonaro tinha 15% das intenções de voto, 15% de doidinhos que estavam soterrados em ódio”, descreve Dornelles.

Quanto a Bolsonaro, Bacurau foi rodado entre março e maio de 2018, antes da facada, quando o candidato ainda parecia uma alternativa irreal. Os diretores comparam o modo jocoso como o hoje presidente se refere ao Nordeste com os episódios de preconceito “suave” que dizem sempre ter sofrido por serem nordestinos. O ponto de virada, aí, é a reeleição de Dilma em 2014. “Durante muitos anos, eu realmente sentia uma redução nesse tipo de incidente. Na reeleição, comecei a perceber algo estranho, como se fosse uma volta ao passado”, lembra Mendonça. “Aí houve uma onda muito forte de ódio contra os nordestinos nas redes sociais. Foi quando achei que tinha um primeiro sinal de que alguma coisa estava errada. Com o golpe e com os desenvolvimentos seguintes, a gente tem percebido isso cada vez mais.”

Os cineastas afirmam não haver resquícios de Luiz Inácio Lula da Silva no herói relutante representado no líder facínora Lunga (o cearense Silvero Pereira). “Lunga foi escrito como personagem trans, aí a gente achou essa pessoa incrível que é Silvero”, conta Mendonça. “Seria interessante ser um personagem trans por representatividade, por quebra de expectativa. Seria colocar o poder na mão de um personagem que poderia, por ser o que é, ser alguém fragilizado. Não, fragilizado nada, ele é o rei, a rainha disso tudo”, completa Dornelles.

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