Covid-19: hospitais de Campinas usam áudios de familiares para auxiliar no tratamento de pacientes em coma

Hospitais de Campinas usam áudios de familiares para auxiliar no tratamento de pacientes entubados por conta da Covid-19 #G1

02/08/2020 16:40:00

Hospitais de Campinas usam áudios de familiares para auxiliar no tratamento de pacientes entubados por conta da Covid-19 G1

Conteúdo inclui a voz de pessoas próximas, músicas e sons cotidianos. Segundo especialista, ato gera familiaridade e pode ajudar a diminuir confusão mental gerada pela sedação e entubação.

Áudios gravados por familiares estão sendo usados por hospitais de Campinas no tratamento de pacientes com o novo coronavírus, que estão sedados ou entubados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). A iniciativa propõe que os parentes gravem recados, músicas ou sons que faziam parte do cotidiano da pessoa antes dela ser hospitalizada. Com o material em mãos, a equipe médica reproduz a gravação à beira do leito. Especialistas ouvidos pelo G1 explicam a contribuição da alternativa no auxílio da recuperação. Veja abaixo.

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"Para o paciente, a gente não tem nenhuma comprovação científica de que isso [a reprodução de áudios] traz um benefício, mas há literaturas que colocam como algo indicado. Para os familiares, eu avalio como algo bem positivo, porque eles encontram uma maneira de estar presentes no tratamento", explica Thais de Lima Bezerra, psicóloga clínica responsável pelo serviço no Hospital PUC-Campinas.

Na unidade, os áudios foram implantados durante a pandemia e já foram tocados para seis pacientes. A Prefeitura de Campinas informou que o método também tem sido utilizado na Rede Municipal de Saúde, nos hospitais Ouro Verde e Mário Gatti.

Família relata experiênciaInternado na UTI do Hospital PUC-Campinas, o químico Luís Julian Júnior, de 40 anos, foi um dos primeiros pacientes a receber áudios da família na unidade. Julian foi entubado no dia 24 de junho e, durante 40 dias, este foi o único contato entre ele, a esposa, Amanda, e a filha Sofia, de dois anos. Assista ao vídeo acima.

"A equipe médica me explicou que, tempos depois da entubação, meu marido já estava melhor, mas quando ela tentava fazer a extubação, ele ficava agitado, tinha taquicardia, a pressão subia e o pulmão voltava a ficar comprometido. Então, eu perguntei se poderia estar presente nesse momento, para tentar acalmá-lo", conta Amanda.

O pedido para acompanhamento presencial foi negado pelos médicos, devido ao risco de contaminação pela Covid-19. No entanto, a reprodução de áudios surgiu como alternativa para a família estar junto do paciente e auxiliar na reação.

A esposa então decidiu reproduzir a rotina da casa para fazer o marido voltar à realidade, além de enviar mensagens de incentivo na tentativa de acelerar a recuperação. "Eu e a Sofia gravamos mensagens pedindo para ele ficar calmo. Também fizemos conteúdos com as músicas que ele estava ouvindo antes de ser internado, outros que gravei com barulhos de comidas sendo feitas, porque ele gosta do cheiro do refogado. E eu falava que, logo, ele ia voltar a sentir. [...] Ele reagia apertando as mãos de enfermeiros e tendo alterações na respiração", lembra.

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"O que eu queria era que ele tivesse a sensação de estar em casa enquanto tentava despertar. A sensação de estar comigo e com a Sofia, ao invés de estar no hospital, ouvindo o barulho de máquinas", diz Amanda.Amanda e Sofia gravavam áudios contando histórias para o pai da família enquanto ele estava sedado e entubado para tratar a Covid-19 — Foto: Arquivo pessoal/Amanda Julian

O homem começou a despertar no dia 13 de julho. De acordo com Amanda, no dia 22, ela e o marido conseguiram se falar pela primeira vez desde a entubação dele, através de uma videochamada."Ele está começando a respirar bem sem aparelhos, recuperando a coordenação motora, fazendo fisioterapia respiratória. [...] Continuo mandando os áudios, que agora ele escuta sem sedação, e fotos da Sofia", conta.

Julian apresentou os primeiros sintomas da Covid-19 no dia 9 de junho e recebeu o diagnóstico positivo para a doença no dia 22, mesma data em que foi internado no Hospital PUC-Campinas. De acordo com a família, o homem não possui comorbidades.

O que explica a neurociência?Segundo o médico psiquiatra Osmar Della Torre, a voz de pessoas próximas gera familiaridade durante o tratamento médico de pacientes desacordados, o que pode ajudar a diminuir a confusão mental provocada pela sedação e entubação.

"Estudos sugerem que pacientes em coma que ouvem gravações de familiares quatro vezes por dia, durante seis semanas, recuperam a consciência mais rápido. Mesmo sedados, ao ouvirem a voz de familiares, eles podem produzir respostas fisiológicas, como alterações na respiração e expressões faciais", explica.

A recepção e o processamento de sons do ambiente pelo paciente, neste caso, depende da medicação usada na sedação, do dano cerebral e do tempo que a pessoa está na UTI."O som é uma onda sonora captada pelo ouvido e traduzida pelo cérebro. Em sedação leve, o paciente ainda recebe o estímulo e consegue traduzir como um sentido, o que pode não acontecer em casos de sedação pesada", pontua Della Torre.

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De acordo com a psicóloga do Hospital PUC-Campinas, existe um protocolo para os áudios serem tocados. Na unidade médica, os profissionais acionam um familiar do paciente entubado para avaliar as demandas de contato. A aprovação do serviço depende do processo gerar benefícios para a pessoa doente -- o que não ocorre em todos os casos.

Contato através de tabletsAlém da reprodução de áudios, durante a pandemia, os hospitais de Campinas têm possibilitado que familiares tenham contato virtual e em tempo real com pacientes através de tablets ou smartphones.

A enfermeira Gláucia Tsuya Nakamura optou por suspender as visitas à filha Isabella, que nasceu prematura no dia 19 de junho e ficou internada na UTI neonatal, após apresentar os sintomas da Covid-19.A separação durou um mês, já que a mãe teve contato com pessoas contaminadas pela doença enquanto estava isolada da filha e, assim, teve de estender o distanciamento por mais do que 14 dias.

No período, o contato entre mãe, pai e filha aconteceu através de visitas virtuais. Na UTI neonatal, uma enfermeira posicionava o celular do hospital próximo à incubadora da bebê e ligava para Gláucia e o marido. [veja vídeo abaixo]

Casal vê filha que nasceu prematura através de videochamadas durante a pandemia"Era assim que nós matávamos a saudade da Isabella. Antes das visitas virtuais, eu me sentia preocupada, tinha até febre, o que passou quando eu voltei a ver a minha filha. Eu e a equipe de enfermagem também notamos que ela ganhou peso com mais facilidade desde que o contato foi retomado. Foi muito importante", relata.

Apesar dos sintomas apresentados, o teste de Covid-19 de Gláucia deu negativo e o afastamento entre mãe e filha passou a ser preventivo, por escolha da mulher.Bebês prematuros e a voz maternaQuestionado sobre a importância da presença da mãe na evolução de um bebê prematuro, mesmo que à distância, Della Torre explica que o fator chave está na voz da mulher.

"A voz materna tem efeitos fisiológicos, comportamentais e emocionais em bebês prematuros, melhorando a estabilidade da frequência cardíaca e respiratória, além de aumentar a velocidade do ganho de peso. Além disso, existe o efeito nas mães, que se sentem mais envolvidas no cuidado com o bebê", explica.

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