Amélia se entrega - Cultura - Estadão

@leandrokarnal Amélia se entrega

17/01/2022 03:30:00

leandrokarnal Amélia se entrega

No limite da morte, teria esbarrado na vida. O prazer, afinal, pode renovar a esperança

16 de janeiro de 2022 | 03h00Amélia era uma mulher exemplar. Havia cuidado da mãe e do pai por muitos anos e de forma generosa. Virou modelo para gente que queria falar da importância de amparo a pais idosos. Acabou nunca se casando. Voz leve, sempre sorrindo, cozinheira maravilhosa: tocava uma vida regrada, sem luxos. Em todo aniversário, trazia um pequeno presente de sua lavra: das bem-cuidadas embalagens surgiam brevidades inesquecíveis ou sua apreciadíssima geleia de laranja. O pudim da Amélia era saudado com palmas ao chegar à mesa. Educada, louvada pela família, adepta do terço diário, era sempre adequada. Uma sobrinha mais crítica era uma voz que destoava do coro: afirmava que faltava na tia Amélia um pouco de vida, um toque de humanidade, uma rebeldia talvez. A jovem era silenciada por todos os mais velhos: “Quem dera que o mundo tivesse mais Amélias”. Maria Clara era dura, ainda que gostasse da parente, ressentia-se da excessiva cordialidade. “Perfeita demais, asséptica como uma UTI”, dizia entredentes. 

Consulte Mais informação: Estadão 🗞️ »

'O machismo tira das crianças o direito de ser', diz Nana Queiroz

Depois de trabalhar mais de uma década combatendo a violência contra a mulher, a jornalista Nana Queiroz engravidou de um menino. A partir deste desafio e da vontade de 'não cometer os mesmos erros' nasce o livro: 'Os meninos são a cura do machismo'. Ao Estúdio CBN, a autora deu mais detalhes do processo de estudo e escrita que originou a obra. Consulte Mais informação >>

leandrokarnal miriamleitao se entregou?

Alec Baldwin entrega celular à polícia em investigação sobre tiro em set - Cultura - EstadãoEstadaoCultura Alec Baldwin entrega celular à polícia em investigação sobre tiro em set Cultura Aff, passado 200 anos...

'BBB 22' estreia buscando mais interações com o público - Cultura - EstadãoAgora sob comando de Tadeu Schmidt, reality show terá mais jogos direcionados aos telespectadores Cultura 💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩💩 Cultura Cultura O programa q faz a cabeça e mente dos jornalistas do Estadão.

Elis Regina, 40 anos depois da morte, será tema de três grandes projetos - Cultura - EstadãoUma HQ desenvolvida pelo desenhista Gustavo Duarte e dois especiais de TV, um da HBO e outro do canal Arte 1, trazem conteúdo raro e inédito da cantora Cultura E iraram-se as nações, e veio a tua ira, e o tempo dos mortos, para que sejam julgados, e o tempo de dares o galardão aos profetas, teus servos, e aos santos, e aos que temem o teu nome, a pequenos e a grandes, e o tempo de destruíres os que destroem a terra. Cultura Meu Jesus come a ceia nos 7 dias da Páscoa e o dízimo de Deuteronômio 26:12 a cada 3 anos e me salva em Mateus 25:34 O Jesus de vocês a Igreja ROMANA criou construindo Igreja e colégio fundando as capitais do mundo com os escravizadores e M. Lutero com ex escravos Cultura os fãs da elis continuam vencendo, ô glória 🤧

Rádio Eldorado guarda íntegra de maior show de Elis; ouça trechos - Cultura - EstadãoGravação de Falso Brilhante, grandioso espetáculo apresentado pela cantora na década de 1970, está nos arquivos da emissora do Grupo Estado Cultura Trarei sobre eles o que eles mais temem. Porquanto Eu chamei, e ninguém sequer esboçou resposta ; preguei e ninguém deu ouvidos. Praticaram o mal diante da minha pessoa e escolheram fazer tudo quanto me desagrada profundamente!” Cultura lucasgerbazi

Céline Dion volta a cancelar turnê 'Courage' por motivos de saúde - Cultura - EstadãoEstadaoCultura Céline Dion volta a cancelar turnê 'Courage' por motivos de saúde Cultura Melhoras! Cultura 😞😢

Álbuns emblemáticos do mundo da música completam 50 anos em 2022 - Cultura - EstadãoOuça a gravações icônicas de Rolling Stones, Elton John, David Bowie, Lou Reed e Neil Young lançadas em 1972 Cultura Eu disse que vocês morrerão em seus pecados se vocês não crerem que Eu Sou, de fato morrerão em seus pecados'.Eu Sou o que vive;estive morto, mas eis que estou vivo por toda a eternidade! “Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.'eu sou o principio e o fim...

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo 16 de janeiro de 2022 | 03h00 Amélia era uma mulher exemplar. Havia cuidado da mãe e do pai por muitos anos e de forma generosa. Virou modelo para gente que queria falar da importância de amparo a pais idosos. Acabou nunca se casando. Voz leve, sempre sorrindo, cozinheira maravilhosa: tocava uma vida regrada, sem luxos. Em todo aniversário, trazia um pequeno presente de sua lavra: das bem-cuidadas embalagens surgiam brevidades inesquecíveis ou sua apreciadíssima geleia de laranja. O pudim da Amélia era saudado com palmas ao chegar à mesa. Educada, louvada pela família, adepta do terço diário, era sempre adequada. Uma sobrinha mais crítica era uma voz que destoava do coro: afirmava que faltava na tia Amélia um pouco de vida, um toque de humanidade, uma rebeldia talvez. A jovem era silenciada por todos os mais velhos: “Quem dera que o mundo tivesse mais Amélias”. Maria Clara era dura, ainda que gostasse da parente, ressentia-se da excessiva cordialidade. “Perfeita demais, asséptica como uma UTI”, dizia entredentes.  A prestativa Amélia não se ofendeu ao saber do comentário. Era cordata, equilibrada e previsível... Era uma mulher confiável para o condomínio, para a família e para a igreja. Era, em si, um templo de mármore funcional e – Maria Clara tinha alguma razão – um pouco fria. A vida é dinâmica e cheia de surpresas. Atendendo ao convite da irmã que possuía casa no litoral, Amélia aceitou passar o feriado de ano-novo 2021/2022. Ao chegar, fez o que sempre se esperava dela: frases gentis, um bolo maravilhoso à tarde e o famoso chazinho da tia Amélia, quando a noite se aproximava. “Ah, se houvesse mais Amélias”..., bradou, novamente, o coro familiar.  Na tarde seguinte, primeiro dia do ano, todos ainda se recuperavam da festa. Nossa personagem nunca bebia e tinha acordado na hora de sempre. De maiô, decidira fazer algo quase esquecido no escaninho da memória: nadar. A praia era tranquila, a água estava quente, pareceu uma quase aventura na sempre previsível vida que ela levava. Entrou feliz na água e nadou com uma felicidade pouco usual. Chegou a soltar gritinhos de satisfação. Fazia anos que não se entregava à água ou a qualquer outra coisa. Foi se afastando da areia como uma sereia recém-convertida ao reino aquático. Era, exatamente, o que Freud chamava de sentimento oceânico... Amélia ousou em demasia. Fazia tantos anos, tantos. Sim, e o tempo, sempre ele, tem seus pedágios. As pernas fraquejaram. A escassez de prática cobrava seu preço. A ousadia, tão rara, parecia que começava a desafiar a existência. Amélia perdeu forças. Sua vida toda prudente perigava por uma única decisão destemida. Tentava se acalmar, mas o ar lhe faltava. O pânico crescia. Chegou o desespero e, religiosa, começou a gritar por Deus e por auxílio. O resgate veio, inesperado como um raio em dia de céu azul. O helicóptero dos bombeiros fazia uma ronda de ano-novo. Era um dia de muitos afogados pelo excesso de bebidas. Vendo o desespero visível da senhora no mar, o aparelho chegou mais perto e um bombeiro saltou com uma boia. O salvador era um rapaz moreno e forte. Foi fácil agarrar Amélia franzina. Ela, apesar do susto, já percebeu que tinha recebido um sursis do céu para um tempo a mais no mundo. Entregou-se ao prolongado abraço do seu bombeiro e aninhou-se entre seus braços. Ele estava quente e era jovem. Com pés de pato e habilidade, o jovem avançou abraçado a Amélia. Dizem que a falta de oxigênio pode produzir um aumento do estímulo sexual. Talvez o alívio contivesse chave na entrega por agonia. Amélia foi invadida de um prazer que nunca havia sentido. Começou a arfar e se agitava um pouco. O rapaz forte dizia: “Calma, senhora, está tudo bem agora”. Sim, ela sabia que tudo estava bem, muito bem, como nunca antes estivera. Sentia-se feliz, estava segura e um pouco envergonhada. Amélia tinha experimentado um prazer inédito, profundo e transformador. Faltando alguns metros para chegar ao solo seguro, ela foi invadida por um tremor profundo, generalizado e um som de satisfação intenso. Amélia, enfim, tinha se entregado à vida. O barulho do helicóptero, o vozerio e os alertas dados à família inundaram a praia de curiosos, amigos e parentes. Vendo que Amélia chegava sorridente nos braços do bombeiro, todos aplaudiram. “Que alívio!” “Que susto!” “Aleluia!” gritavam os parentes frequentadores de uma comunidade pentecostal.  A tia sobrevivente tomou um longo banho e foi recebida com nova salva de palmas na sala. A pacata senhora havia galvanizado a casa com sua aventura. Somente a sobrinha crítica, aguda, percebeu que o olhar de Amélia mudara. Ela estava diferente. Amélia parecia mais humana. A tia piscou para a sobrinha com certa cumplicidade. Agradeceu a preocupação. Disse que, no dia seguinte, faria uns doces para o jovem bombeiro que a resgatara. Deu uma nova e discretíssima piscada para Maria Clara. No limite da morte, a boa Amélia parecia ter esbarrado na vida. O prazer, afinal, pode renovar a esperança. Tudo o que sabemos sobre: